sexta-feira, 28 de maio de 2010

Florestas Encantadas / Enchanted Forest


Exposição em Sampa / Exhibition in São Paulo


Espero por todos lá! Everyone there!


Curadoria de Claudia Renault
Texto de Agnaldo Farias


LEONORA WEISSMANN

Há um frescor pouco comum hoje em dia nessas pinturas da jovem Leonora Weissmann, a Loló, uma curiosidade infatigável por pessoas e paisagens, no mais das vezes representadas com a naturalidade desses registros fotográficos despretensiosos, feitos com a finalidade de capturar uma cena ou um momento singelo e tocante, protagonizados por gente que nos é querida – pai, mãe, crianças, um amigo que se mudou para um sítio - ou por fragmentos da natureza que nos surpreendem pela variedade cromática ou pelo mosaico de formas cambiantes produzidos pela luz solar.

De saída folheamos este catálogo ou visitamos sua exposição, a primeira individual que ela realiza em São Paulo, com um sentimento próximo, a mesma sorte de simpatia que se desprende quando nos detemos num álbum de família que não a nossa ou encontramos dentro de uma gaveta uma coleção de imagens que não nos pertence embora no fundo e estranhamente nos seja bastante familiar. Mas é uma sensação que aflora somente no primeiro contato, quando ainda estamos sob o efeito da desatenção habitual que nos leva a suportar um cotidiano no geral insípido. Pois em seguida vemo-nos repassando essas pinturas uma a uma, intrigados pelo aparente prosaísmo dos motivos representados, percebendo que eles são produzidos com uma qualidade incomum, fundada na bifurcação, no trato equilibrado de dois aspectos: de um lado, os enigmas persistentes e ilimitados da figura humana e da paisagem e, de outro, a defesa da pintura, com seus atributos tão especiais, como meio mais adequado para dar conta deles.

Pessoa e paisagem; pessoas metidas em paisagens; pessoas tratadas como se fossem paisagens; paisagens. Para começar, o que é um rosto senão uma paisagem, especialmente quando apresentado em grandes dimensões, em formato vertical, como um espelho colocado à nossa frente? O rosto, essa fonte inesgotável de mistério, nos é apresentado em versões variadas, consoante os diversos modelos de que a artista se vale: sérios e sorridentes, compenetrados e pensativos ou com o desajeito típico de quem não se sente a vontade posando. Junto com isso vem a cuidados modelação de cada imagem, o evidenciamento de suas depressões e saliências mais ou menos suaves, as áreas sombreadas, o contorno dos cabelos e das sobrancelhas, o desenho escandido da armação dos óculos. Como também nos chama a atenção a geometria espontânea ou organizada dos braços e pernas, o modo como as duas meninas avançam no meio do mato equilibrando-se com os braços abertos, um homem acomoda-se inclinando seu tronco sobre um guarda corpo, uma mulher abandona-se descansando sobre uma pedra, dois homens, registrados de frente, celebram sua amizade num abraço mútuo, uma mulher sentada com as pernas desalinhadas surpreende-nos pelo feerismo cromático de seu vestido, as linhas verticais exaltadamente coloridas que capturam e alimentam nosso olhar.

Pinturas como essas desaceleram nossa atenção obrigando-a a focar, fazendo com que notemos o alto grau de liberdade que a artista dá às suas pinturas, liberando-as para ir além da simples representação veraz daquilo que se vê. Roxa, rosa, azul, amarela, cada calça ou camisa é pretexto para tramas delicadas, complexas urdiduras de cores, variações de tons que oscilam de soluções intimistas até acabamentos ruidosos. E o que dizer dos espaços onde as figuras se inscrevem, sobretudo aquelas que não se inscrevem em paisagens naturais, como os dois meninos ou a menina solitária com o cabelo encaracolado e os braços colados ao corpo? Estão todos eles suspensos no ar, submersos em atmosferas densas, turvadas por texturas esmaecidas, variadas quanto ao acabamento e matizes tonais.

Há, por certo, uma homologia entre essa compreensão da natureza da pintura e a música, de resto o outro território freqüentado por Loló. E essa constatação se evidencia no modo dela tratar a paisagem, pensando-a sempre como uma massa de timbres, um amálgama de formas e cores. Com seus troncos, galhos e folhagens, as árvores e as massas de vegetação são pretextos para digressões sobre o verde, expansão do horizonte de tons possíveis interrompidos aqui e ali por irrupções de cores contrastantes, associados a uma miríade semelhante de formas, do ritmo frenético de linhas curtas verticais ou horizontais justapostas à vórtices circulares, tudo isso combinado com acontecimentos mais organizados, provenientes de um desejo de ordem. Do mesmo modo superfícies aquáticas e colinas de pedra, cujas sobreposições e transparências sugerem procedimentos próprios a técnica de aquarela, são o álibi para que a pintura se afirme como um modo peculiar de produzir o visível, uma exaltação da certeza de que a linguagem nasce do contato com o mundo mas não se confunde com ele. E talvez resida justamente aí o encanto desencadeado pelas pinturas dessa jovem, que ousam, abordam o familiar para demonstrá-lo como infinito, passível de ser incessantemente renovado.

Agnaldo Farias

2010